quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sobre quando a vaca foi pro brejo.



Era uma vez uma sapa. Inexperiente ainda, tadinha, pouco sabia do mundo sapo. Essa sapa, um dia, conheceu outra sapa, que embora mais novinha, era mais experiente. Elas então se apaixonaram. Foi lindo, o lago todo ficou em festa. E quanto mais elas ficavam juntas, mais as noites de luar pareciam ficar lindas.


Então a sapinha inexperiente, ouvindo toda a voz da experiência da sua amada, resolveu convidá-la para morar no seu brejo. Sim, ela estava um pouco relutante e apreensiva, mas a outra era tão experiente, e tão confiante e queria tanto aquilo que ela também passou a querer...


A sapinha pensou que a melhor coisa que tinha feito em sua vida era ter convidado a sapa pra vir morar em seu brejo. O brejo ficou lindo! A sapa experiente sabia deixar aquele brejo como outro!


Mas um dia a sapa, do alto de toda sua experiência, disse que aquele brejo não servia para ela. Então a sapinha pensou que teriam de achar um outro brejo para elas viverem felizes. Mas a sapa experiente disse que isso já não era mais possível, e deixou o brejo e a sapinha para trás.

Demorou para a sapinha perceber que o que a outra sapa também tinha deixado para trás um pouco de experiência. Demorou para ela entender que na realidade ela não tinha convidado uma sapa para morar em seu brejo, na realidade ela tinha convidado uma vaca! E a vaca foi pro brejo! Ela achava que sua vida tinha ido junto...

Então ela percebeu que alguns animais se fantasiam, se camuflam, e que é dificil distinguir. Distinguir a vaca da sapa. O burro do cachorro. Gato com lebre. O gato e o gambá, e tantos outros... Sabia que tem até veado que é urso! ?


Então ela acabou não convidando mais ninguém para o seu brejo. Ela tinha medo de se confundir novamente.

Ela falava, conversava, e até dava uns beijinhos em alguns aminais do lago. Mas ficava sempre desconfiada. Ela nunca sabia se aquele animal que ela via, realmente era aquilo mesmo. E como saber?


Só depois de muuuuito tempo é que ela percebeu algumas coisas. Foi nesta época que ela percebeu que não era assim tão inexperiente. Talvez algumas sapas, ou vacas, quisessem que ela pensasse assim. Porque ela percebeu que pelo menos de uma coisa ela sabia. E que esse era um conhecimento muito valioso...


Ela sabia que não havia como ter certeza. Ela percebeu que nunca se sabe. Ninguém sabe. E que algumas vezes nós vamos mesmo confundir. Vamos nos enganar. E vamos nos machucar. E que isso dói. Dói mas ensina. Ensina a curar o machucado e a tentar novamente. Até um dia, quem sabe, poder encontrar aquela sapinha especial que sempre procuramos...

Eu estou testando uma sapinha que espero ser a especial para o meu brejo. Quem sabe? O importante é não desistir de tentar!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A arte de viver...

Amo arte. Foi Fernando Pessoa quem disse que “A ciência descreve as coisas como são; a arte, como são sentidas, como se sente que são.” Sou uma apaixonada por arte, e me entusiasmo com ela! Adoro tantos tipos de arte...

Não sei se todos, mas quero acreditar que sim.

Claro comecei com as formas mais comuns e acessíveis dela. Com uma boa música tocada no rádio. Nem sabia o que era arte, mas gostava de música, comecei a me aprofundar no assunto. As músicas do rádio eram boas, mas logo comecei a conhecer mais que isso. Acreditei em Oscar Wilde, que falava que “a música é o tipo de arte mais perfeita: nunca revela o seu iltimo segredo.” Procurei desvendar este segredo. Comecei a conhecer música não tão comerciais, mas que me tocavam. Depois músicas que talvez já tivessem sido comerciais, ou que o eram para um determinado grupo. Amei Carl Orff e sua quase herética Carmina Burana.

Mas outras formas da arte começaram a me chamar a atenção também. Pinturas. Tantas e de tantos tipos... Os classicos me chamaram a atenção. Alguams vezes me pareciam absurda, outras nem tanto... Mas e o que falar das vezes em que o absurdo parecia fazer sentido, ou se parecer com o que eu vivia? Depois Van Gogh, Dalí, e dalí Magritte, Derek Hess... Tantos!

Meus horizontes começaram a se alargar e percebi tantas outras formas de arte a minha volta. Passei a andar olhando para cima no Centro de São Paulo, vendo os antigos prédios, muitos sem a devida reforma ou pintura, mas lindos! E esquecidos... Então arquitetura!

Comecei a procurar as formas. Achei prédios novos e velhos tão lindos, tão bem arquitetados. Como eu gostaria saber arquitetar dessa forma. Talvez pudesse fazer um desses prédios, ou talvez pudesse só arquitetar um pouco mais a minha vida...Mas Mozart disse que “para fazer uma obra de arte não basta ter talento, não basta ter força, é preciso também viver um grande amor”, e eu não tinha vivido esse amor, não podia fazer arte. Nem com a minha vida...

Ah a arte...
Ah o amor...

Aprendi que falar também era uma arte. E ouvi discursos maravilhosos. Me apaixonei por uma discurssista, e quantas formas ela tinha para discussar... Quis acreditar que ouvir também fosse uma arte, pois então eu seria uma excelente artista. Mas os discursos sempre me mostravam que eu era desprovida de arte, eu era uma mera expectadora. Então minhas expectativas passaram a ser poder estar próxima dessa artista... E que ela talvez pudesse fazer minha vida ficar mais perto da beleza da arte.

Se ‘”a arte de viver é simplesmente a arte de conviver ... simplesmente, disse eu? Mas como é difícil!” (Mário Quintana). Então um dia deixei de ser a expectadora. Porque sua arte não mais podia se destinar a mim. Nem assistir a arte eu poderia mais...

...

A vida continua. Precisa continuar. Preciso trabalhar, comer, falar, estar, viver.

Então passou-se um longo periodo cuja vida se tornou algo cinza, sem gosto, sem beleza. Minha vida e a arte são definitivamente dissociadas. Parei de olhar para cima, procurando a beleza da vida, dos arranha-céus... Comecei a andar olhando para baixo. Meus pés, outros pés, sarjeta, lixo, pituca de cigarro... esse passou a ser meu mundo, era só o que via.

Como diz Vinicius, “vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”, e então percebi que a arte está para todos. Ela me encontrou mesmo olhando para baixo. Arte de rua. E sobretudo a arte da vida. Porque não importa para qual lado olhe, ela está lá. Amos os grafitttes que embelezam a cidade, em toda parte, sem distinção alguma. Foi em uma sarjeta, no lugar menos improvável, e mais desprezado que a encontrei novamente, a arte!

Hoje voltei a ser expectadora. Vejo tanta arte a minha volta, mas pessoase em tudo a minha volta. Mas também passei a ser artista. Artista em ver tanta arte em tantos locais. Artista em viver, como se pode, e da forma que se pode. Artista em ouvir, porque Goethe me ensinou que “falar é uma necessidade, escutar é uma arte”, e comecei a ver que quando tenho oportunidade também posso ser artista em falar, ou quem sabe escrever. Que a arte não exclui, ela inclui.

Hoje minha arte é viver, viver a vida com arte, com felicidade, hora assistindo, hora atuando, mas o melhor é poder estar em ambos os locais. Picasso já dizia que “a arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade”.

Porque a arte nos mostra que tudo pode ser bonito, com um pouco de talento, vontade, e criatividade. Absolutamente tudo ! Inclusive nossas vidas...

A arte diz o indizível; exprime o inexprimível, traduz o intraduzível”. Leonardo Da Vinci.